Bernes em animais de estimação

Berne é uma doença parasitária provocada pela larva da mosca Dermatobia Hominis.

Animal apresentando grande lesão facial chamada de miiase, conhecida como “Bicheira”, que difere do berne.

 

Berne ou dermatobiose é um estágio larval que infecta diversos animais, incluindo os pets e até os homens, causado pela chamada “mosca berneira” ou “mosca varejeira”. Portanto, são larvas de moscas que se desenvolvem no tecido subcutâneo dos pets. O berne é considerado também uma miiase, assim como a conhecida “bicheira”.

Mas a diferença entre eles é que no caso da bicheira são várias larvas de mosca que se desenvolvem e se alimentam de tecido vivo e o berne é apenas uma larva – e a lesão não é invasiva como a bicheira. É muito maior o número de casos em áreas rurais, do que em grandes cidades, onde muitos animais vivem dentro de casa ou de apartamento.

A mosca Dermatobia Hominis em sua fase adulta vive apenas 24 horas. A época de postura é nas estações mais quentes onde a presença de temperatura e de umidade é ideal. A mosca “captura” um outro inseto, normalmente uma outra espécie de mosca e deposita seus ovos na região do abdômen. O inseto, chamado veiculador, pousa no animal, libera as larvas, que saem do ovo, caminham pelos pelos até atingir a pele.

A larva penetra na pele do animal provocando uma lesão nodular avermelhada com orifício central, por onde é eliminada uma secreção aquosa (exsudato), levemente amarelada ou sanguinolenta. A larva vai se desenvolver neste local. Em mais ou menos uma semana a larva vai estar oito vezes maior do que seu tamanho inicial. A larva fica mais ou menos de 30 a 70 dias na pele crescendo. O orifício de entrada fica aberto, pois é o canal de respiração da larva do berne. Isso facilita reconhecer uma lesão causada pelo berne. Após esse tempo na pele, se o berne não for tirado ele acaba saindo sozinho para continuar seu ciclo.

As larvas caem no chão e se tornam pupas, que originam insetos adultos dentre 32 a 43 dias.

As larvas possuem pequenos espinhos, os quais se movimentam causando dor e incômodo para o animal. Se não forem retiradas, pode ocorrer uma infecção bacteriana secundária, aumentando a inflamação e levando a formação de abscessos. Portanto, as larvas devem ser extraídas para livrar os animais da dor, caso contrário, o cão tentará morder a pele a todo o momento na tentativa de tirá-las.

Se o berne morrer antes de completar o ciclo, o orifício se fecha e o nódulo – que lá permanece – pode ou não ser absorvido pelo organismo do animal. Portanto, é importante que o proprietário do pet o leve ao veterinário assim que perceber o problema, caso contrário o animal pode se mordiscar e criar esse nódulo.

O berne deve ser retirado vivo. Os veterinários têm prática em tirá-los, o certo é a retirada mecânica da larva, expressão da lesão e pinçamento da mesma. Muitas vezes, faz-se uso da anestesia, dependendo do local e tamanho do berne, assim como o comportamento do animal. Existe um “tratamento tradicional” usado muito em áreas rurais onde se faz a colocação de um toucinho sobre a lesão por algumas horas. A larva não consegue respirar e tende a penetrar no toucinho, deixando a pele do hospedeiro. Muitos proprietários tentam tirar ou colocam o conhecido “spray roxo ou prata” no local. Essa prática deve ser evitada já que o spray acaba matando a larva e causando uma infecção no local. Vale lembrar que gatos também podem adquirir o berne, mas é mais difícil de acontecer já que os felinos têm o hábito de se limpar constantemente, o que espanta as moscas.

Para evitar ou diminuir a chance do pet adquirir berne, deve-se controlar a quantidade de moscas no ambiente onde vivem os animais. Para isso, o correto é remover as fezes dos animais mais do que uma vez ao dia, lavar o local diariamente e manter o lixo fechado. Como podem ocorrer dias mais quentes em qualquer estação do ano, o cuidado deve ser contínuo.

Existem no comércio alguns medicamentos que podem auxiliar no controle de larvas. Há medicamentos orais que controlam a infecção e impedem o desenvolvimento de larvas de moscas sob a pele. Os medicamentos mais usados são: o Luferuram, Nytenpiran e a Ivermectina via oral ou via subcutânea. É importante ressaltar que o uso da Ivermectina não deve ser feito em cães da raça Collie nem em seus descendentes, por poder levar a óbito.

Finalizando, é importante saber que o berne tem sua importância na pecuária, mas também em pets. O conhecimento do seu ciclo biológico, assim como da prevenção e do tratamento é de grande importância para o bem-estar dos animais e dos seus proprietários.

 

Caso clínico

Tommy, SRD, três anos e do sexo masculino foi encaminhada para atendimento veterinário com as queixas principais de lesões de pele e muito prurido.

Figura 1. Com um bisturi, é realizada uma pequena incisão sob a abertura da lesão (onde a larva respira) para facilitar a retirada da mesma.

 

O proprietário notou que o animal tinha algumas lesões com aberturas no centro e que cresciam conforme passavam os dias. Percebeu também que o cão mordiscava as lesões de forma contínua e se apresentava bem incomodado.

 

Figura 2. Com as mãos por debaixo do nódulo é feita uma força para poder “espremer” a larva para fora de sua abertura.

 

Figura 3. Ajuda de uma pinça para retirada da larva.

 

Logo que chegou à clínica, foi constado que ele estava com alguns bernes pelo corpo. Como os bernes já apresentavam um tamanho considerável e a pele do animal estava bem dolorida, foi realizado o uso de anestesia leve para facilitar o procedimento de retirada das larvas.

Portanto, foi aplicada uma injeção intravenosa de Xilazina (na dose de 0,1 ml/kg) associada com Quetamina (na dose de 0,06 a 0,1 ml/kg). Com o animal sedado, os pelos aos arredores das lesões foram cortados para melhor visibilidade.

Com a ajuda de um bisturi foi feito um corte pequeno para melhor retirada da larva (figura 1). Em seguida, foi realizada a expressão da larva, fazendo força, pegando por baixo do nódulo (figura 3) e pinçando o berne para sua total retirada (figuras 4 e 5). A larva retirada por inteiro (figura 6) foi descartada e o local da lesão tratado com Iodo Povidine.

 

Figura 4. Ilustração da retirada com a larva já saindo pela metade.

 

Como tratamento em casa foi indicado o uso do “Spray Roxo” ou o “Spray Prata” nas lesões por alguns dias para evitar um caso de miiase conhecida como “Bicheira” (já mencionado). Como o animal vive em sítio, foi indicado, como prevenção, o uso mensal de Ivermectina na dose baixa de 0,006 mg/kg, por via oral.

 

Figura 5. Aspecto da larva inteira retirada.

 

Conclusão

O proprietário deve sempre estar atento às lesões de pele apresentadas pelo seu animal e sempre que surgir alguma, levá-lo ao veterinário. Sabendo da existência deste tipo de problema com larvas de moscas, a prevenção acaba sendo um item muito importante.

Importante ressaltar que o proprietário que não tiver prática na retirada de larvas não deve tentar fazer o procedimento em casa, já que pode causar um problema ainda maior. É preciso estar sempre alerta a qualquer lesão diferente na pele dos animais.

 

 


Julie Lewis Ribeiro
Médica Veterinária.


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Por • 2 Jul, 2012 • Seção: Bem-estar animal, Casos Clínicos, Novidades no mercado, Patologia, Saúde animal